Sue andou decidida com a garrafa na mão
Completou três copos
No Jukebox Scarlet cantava Tom
Ele nem a olhou,
Só ergueu a cabeça enquanto virava
De um só gole, sem ofegar.
Tirou do bolso uma nota de 20
Levantou-se decidido,
Ainda digno, soltou algo como um sussurro:
“ Não deixe nunca que uma mulher acabe com a sua vida “
Seus pés, locomotivas prestes do abismo seguiram no trilho,
Retirou do cabide o sobretudo cinzento, sem sequer olhar para trás.
A rainha completava 68 anos
Enquanto Serge Gainsbourg
Assinava a canção de despedida
quarta-feira, 15 de julho de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
Queria meus velhos hábitos e uma dúzia de garrafas lacradas
Ela abriu imediatamente a porta e resmungou gaguejante:
- Hoje você não entra querido.
Sua voz carregada de pena, esboçava qualquer coisa como um sentimento nobre, sentia-se nela o balbucio típico de ações forçosas.
Por minha feição, meus vestes e olhos deduzira de onde eu vinha e quantos copos de cerveja, exatamente, havia bebido após a última rodada que paguei aos dois companheiros à esquerda e a moça à direita no balcão.
Pela maneira com que segurava a porta, entreaberta deixando transparecer sua suave camisola de verão e uma parte de sua perna apoiada sobre a ponta do pé, meus olhos viam através, como se realmente pudessem, esbocei um sorriso, coisa que fazia quando tinha certeza que as coisas iam bem:
- Há uma banda tocando um blues sujo e pesado em algum lugar da minha cabeça - disse soturno - que tipo de furacão passou por aqui?
Ela permaneceu estática, via-se apenas o movimento dos lábios brancos penetrarem sedentos entreabertos deixando aparecer as extremidades dos dentes superiores e inferiores.
Ao fundo, não era blues que soava e sim algum clássico dos anos 80, um parente distante de uma banda consagrada, ela adorava essas coisas.
Uma tênue faixa de tempo passou, enquanto observava os sinais aparentes em seus ombros e pescoço, ambos glaciais, brancos e castos.
Não me olhava fixamente, mas direcionava inconstantes olhares em minha direção, que em qualquer outra ocasião soariam impacientes.
Soltou um leve sorriso interno e disse em voz relutante:
- Nós tínhamos um trato e você me aparece com esses sapatos lustrados, com esse sentimentalismo barato.
Olhei-a diretamente, minhas mãos não saíam do bolso, tudo o que fazia era brincar com meus dedos:
- Não há um lugar para onde eu esteja indo.
Foi quando ela fechou os olhos em compreensão e em seguida coçou uma das pernas com ajuda da outra.
Não havia muitos carros transitando, de maneira que em algum apartamento próximo um imbecil assistia o canal de vendas em um volume assombroso, fazendo-se ouvir ao longe.
O corredor era estreito e o tapete destacava ornamentos vermelhos. Passaram-se dois minutos desde minha última palavra.
Em uma fração de segundo tirou da mão oculta sob a porta um Camel e enfiou-o na boca, acendi-lhe cortesmente em um só movimento e como ato contínuo do cintilar produzido pelo isqueiro, virei em direção à porta e observei quase inaudível:
- Estranho nevar em setembro.
- Hoje você não entra querido.
Sua voz carregada de pena, esboçava qualquer coisa como um sentimento nobre, sentia-se nela o balbucio típico de ações forçosas.
Por minha feição, meus vestes e olhos deduzira de onde eu vinha e quantos copos de cerveja, exatamente, havia bebido após a última rodada que paguei aos dois companheiros à esquerda e a moça à direita no balcão.
Pela maneira com que segurava a porta, entreaberta deixando transparecer sua suave camisola de verão e uma parte de sua perna apoiada sobre a ponta do pé, meus olhos viam através, como se realmente pudessem, esbocei um sorriso, coisa que fazia quando tinha certeza que as coisas iam bem:
- Há uma banda tocando um blues sujo e pesado em algum lugar da minha cabeça - disse soturno - que tipo de furacão passou por aqui?
Ela permaneceu estática, via-se apenas o movimento dos lábios brancos penetrarem sedentos entreabertos deixando aparecer as extremidades dos dentes superiores e inferiores.
Ao fundo, não era blues que soava e sim algum clássico dos anos 80, um parente distante de uma banda consagrada, ela adorava essas coisas.
Uma tênue faixa de tempo passou, enquanto observava os sinais aparentes em seus ombros e pescoço, ambos glaciais, brancos e castos.
Não me olhava fixamente, mas direcionava inconstantes olhares em minha direção, que em qualquer outra ocasião soariam impacientes.
Soltou um leve sorriso interno e disse em voz relutante:
- Nós tínhamos um trato e você me aparece com esses sapatos lustrados, com esse sentimentalismo barato.
Olhei-a diretamente, minhas mãos não saíam do bolso, tudo o que fazia era brincar com meus dedos:
- Não há um lugar para onde eu esteja indo.
Foi quando ela fechou os olhos em compreensão e em seguida coçou uma das pernas com ajuda da outra.
Não havia muitos carros transitando, de maneira que em algum apartamento próximo um imbecil assistia o canal de vendas em um volume assombroso, fazendo-se ouvir ao longe.
O corredor era estreito e o tapete destacava ornamentos vermelhos. Passaram-se dois minutos desde minha última palavra.
Em uma fração de segundo tirou da mão oculta sob a porta um Camel e enfiou-o na boca, acendi-lhe cortesmente em um só movimento e como ato contínuo do cintilar produzido pelo isqueiro, virei em direção à porta e observei quase inaudível:
- Estranho nevar em setembro.
terça-feira, 14 de abril de 2009
Sobre café e cigarros
Sentei na velha mesa fria e solitária, onde o único indício de calor era o café morno que fazia-se notar no canto da mesa. Tirei do bolso minha única inspiração em dez meses.
Tudo vai mal no calor intenso, se Deus tivesse uma posição política, seja qual fosse, penso que seria extremista. Meus poros devem estar cansados de trabalhar e meu pulmão vacila como o de um fumante assíduo há 30 anos.
Eu sentei ali, e tudo o que tinha era uma página com linhas recém manchada acidentalmente de café. Passei a escrever loucamente, era o cientista maluco prestes a dar a luz a minha criação. IGOOOR!
A maneira com que me olhavam após enfiar na boca seus cigarros retirados de caixas com listras azuis ou vermelhas (dependentes do humor) só provava o quão cheio deles mesmos estavam. E aos poucos me esvaziava, esvaziaria um pouco deles também, eu os faria esse favor.
Ela se foi como a brisa de um inverno ensolarado, e apesar do calor que fazia lá fora, meu corpo sofria pequenos calafrios, resultantes de lembranças distantes. Cada vez que o jovem garçom retirava a xícara, em resposta lhe pedia outra, como se estivesse a embeber-me de uma salvação momentânea ou a refugiar-me em uma tarde fria de solstício. Não passava de um ato contínuo, inconsciente, automático, se ele não as retirasse, eu não pediria outra.
Escrevi dez ou quinze versos desconexos ligados pelas manchas derramadas, de alguma maneira, aquilo expressava como me sentia. Meus dedos oscilavam e meu âmago balbuciava em meu ouvido.
Então eles fumavam seus cigarros, um através do outro e mexiam suas mãos eloquentemente à ponto de soar patético. Ele me trouxe a oitava xícara e eu o agradeci, as crianças me olhavam com desdém e agora eu era o imperador dos sonhos perdidos. Foi quando por fim, num cintilar de instante pude ver nitidamente o que estava por ser dito.
E era a mim mesmo.
Tudo vai mal no calor intenso, se Deus tivesse uma posição política, seja qual fosse, penso que seria extremista. Meus poros devem estar cansados de trabalhar e meu pulmão vacila como o de um fumante assíduo há 30 anos.
Eu sentei ali, e tudo o que tinha era uma página com linhas recém manchada acidentalmente de café. Passei a escrever loucamente, era o cientista maluco prestes a dar a luz a minha criação. IGOOOR!
A maneira com que me olhavam após enfiar na boca seus cigarros retirados de caixas com listras azuis ou vermelhas (dependentes do humor) só provava o quão cheio deles mesmos estavam. E aos poucos me esvaziava, esvaziaria um pouco deles também, eu os faria esse favor.
Ela se foi como a brisa de um inverno ensolarado, e apesar do calor que fazia lá fora, meu corpo sofria pequenos calafrios, resultantes de lembranças distantes. Cada vez que o jovem garçom retirava a xícara, em resposta lhe pedia outra, como se estivesse a embeber-me de uma salvação momentânea ou a refugiar-me em uma tarde fria de solstício. Não passava de um ato contínuo, inconsciente, automático, se ele não as retirasse, eu não pediria outra.
Escrevi dez ou quinze versos desconexos ligados pelas manchas derramadas, de alguma maneira, aquilo expressava como me sentia. Meus dedos oscilavam e meu âmago balbuciava em meu ouvido.
Então eles fumavam seus cigarros, um através do outro e mexiam suas mãos eloquentemente à ponto de soar patético. Ele me trouxe a oitava xícara e eu o agradeci, as crianças me olhavam com desdém e agora eu era o imperador dos sonhos perdidos. Foi quando por fim, num cintilar de instante pude ver nitidamente o que estava por ser dito.
E era a mim mesmo.
domingo, 12 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Lembranças
estive em minha cabana fatídica
a desenhar linhas por entre estrelas
a combater cavaleiros noturnos
em busca de sanidade
a solidão, em seu âmago,
costuma ser solícita
e silenciosa
não assemelha-se
contudo,
à escuridão.
esteve a criar imagens
em sua máquina de instantes
são também lembranças
que outrora remetera
à nostalgia
ou talvez, à simples saudade
acredito-lhe pois
certa vez me disse
que o tempo
não existe.
a desenhar linhas por entre estrelas
a combater cavaleiros noturnos
em busca de sanidade
a solidão, em seu âmago,
costuma ser solícita
e silenciosa
não assemelha-se
contudo,
à escuridão.
esteve a criar imagens
em sua máquina de instantes
são também lembranças
que outrora remetera
à nostalgia
ou talvez, à simples saudade
acredito-lhe pois
certa vez me disse
que o tempo
não existe.
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