mentiria dizendo "a luz do dia não penetrou em meus olhos"
meu amigo, você não precisa ser tão rude com o sol
se há ainda um ou dois que dizem "ele não vai a lugar algum"
eu certamente me colocaria a sua frente dizendo
"cada homem guia seu norte com ou sem uma bússola"
como no dia em que me ensinara que na verdade habita a insegurança
somos tão seguros de nossas verossímeis palavras
quanto o sol que rasga a tempestade numa tarde primaveril
eu acreditaria à ponto de extinguir a crença no mundo
depois você me diria "não foi exatamente o que quis dizer"
e eu não pediria a verdade, abraçaria calado a vergonhosa mentira
engoliria o café amargo que repousa na cabeceira
andaria ao seu lado por mais um ou dois dias
e ao perceber que jazia morto pelo simples desdém de minha companhia
deixaria no berço da noite o breve choro grave da gaita
gentilmente, para a luz do amanhã.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Há um samana em minha rua
Há um samana em minha rua
Seus olhos, dois diamantes primitivos,
Impenetráveis
De ruas que transpusera Flora,
Rainha dos ensejos de acasos,
De transeuntes estrelas
Em seu universo
Bordado de infinito.
Pisara no chão indigno,
Quando homens trajados de praia
Morriam de saudade
Morreriam amiúde,
De sede e fadiga
À espera do mar
Seus olhos, dois diamantes primitivos,
Impenetráveis
De ruas que transpusera Flora,
Rainha dos ensejos de acasos,
De transeuntes estrelas
Em seu universo
Bordado de infinito.
Pisara no chão indigno,
Quando homens trajados de praia
Morriam de saudade
Morreriam amiúde,
De sede e fadiga
À espera do mar
daydream
my dreams are little wishes
that just forgot to go away
Some birds in their cages
only wish a beach or bay
that just forgot to go away
Some birds in their cages
only wish a beach or bay
domingo, 16 de agosto de 2009
domingo
os cantos úmidos esquecidos pela luz
e quando ela caia no sono
eu abotoava meu sobretudo e amarrava meus sapatos
sentado esboçava na janela embaçada
o seu braço caído sob a cama
e sempre que me dizia adeus
subitamente acordada pelo leve ranger da porta
um breve sorriso involuntário fazia-se perceber
em algum lugar, em Denver ou El Paso
morria um homem a cada segundo
daquele sorriso.
e quando ela caia no sono
eu abotoava meu sobretudo e amarrava meus sapatos
sentado esboçava na janela embaçada
o seu braço caído sob a cama
e sempre que me dizia adeus
subitamente acordada pelo leve ranger da porta
um breve sorriso involuntário fazia-se perceber
em algum lugar, em Denver ou El Paso
morria um homem a cada segundo
daquele sorriso.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Sue andou decidida com a garrafa na mão
Completou três copos
No Jukebox Scarlet cantava Tom
Ele nem a olhou,
Só ergueu a cabeça enquanto virava
De um só gole, sem ofegar.
Tirou do bolso uma nota de 20
Levantou-se com veemência,
Ainda digno, soltou algo como um sussurro:
“ Rapaz não deixe nunca que uma mulher arruíne sua vida “
Seus pés, locomotivas prestes do abismo seguiram no trilho,
Retirou do cabide o sobretudo cinzento, sem sequer olhar para trás.
A rainha completava 68 anos
Enquanto Serge Gainsbourg
Assinava a canção de despedida
Completou três copos
No Jukebox Scarlet cantava Tom
Ele nem a olhou,
Só ergueu a cabeça enquanto virava
De um só gole, sem ofegar.
Tirou do bolso uma nota de 20
Levantou-se com veemência,
Ainda digno, soltou algo como um sussurro:
“ Rapaz não deixe nunca que uma mulher arruíne sua vida “
Seus pés, locomotivas prestes do abismo seguiram no trilho,
Retirou do cabide o sobretudo cinzento, sem sequer olhar para trás.
A rainha completava 68 anos
Enquanto Serge Gainsbourg
Assinava a canção de despedida
sábado, 23 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
Queria meus velhos hábitos e uma dúzia de garrafas lacradas
Ela abriu imediatamente a porta e resmungou gaguejante:
- Hoje você não entra querido.
Sua voz carregada de pena, esboçava qualquer coisa como um sentimento nobre, sentia-se nela o balbucio típico de ações forçosas.
Por minha feição, meus vestes e olhos deduzira de onde eu vinha e quantos copos de cerveja, exatamente, havia bebido após a última rodada que paguei aos dois companheiros à esquerda e a moça à direita no balcão.
Pela maneira com que segurava a porta, entreaberta deixando transparecer sua suave camisola de verão e uma parte de sua perna apoiada sobre a ponta do pé, meus olhos viam através, como se realmente pudessem, esbocei um sorriso, coisa que fazia quando tinha certeza que as coisas iam bem:
- Há uma banda tocando um blues sujo e pesado em algum lugar da minha cabeça - disse soturno - que tipo de furacão passou por aqui?
Ela permaneceu estática, via-se apenas o movimento dos lábios brancos penetrarem sedentos entreabertos deixando aparecer as extremidades dos dentes superiores e inferiores.
Ao fundo, não era blues que soava e sim algum clássico dos anos 80, um parente distante de uma banda consagrada, ela adorava essas coisas.
Uma tênue faixa de tempo passou, enquanto observava os sinais aparentes em seus ombros e pescoço, ambos glaciais, brancos e castos.
Não me olhava fixamente, mas direcionava inconstantes olhares em minha direção, que em qualquer outra ocasião soariam impacientes.
Soltou um leve sorriso interno e disse em voz relutante:
- Nós tínhamos um trato e você me aparece com esses sapatos lustrados, com esse sentimentalismo barato.
Olhei-a diretamente, minhas mãos não saíam do bolso, tudo o que fazia era brincar com meus dedos:
- Não há um lugar para onde eu esteja indo.
Foi quando ela fechou os olhos em compreensão e em seguida coçou uma das pernas com ajuda da outra.
Não havia muitos carros transitando, de maneira que em algum apartamento próximo um imbecil assistia o canal de vendas em um volume assombroso, fazendo-se ouvir ao longe.
O corredor era estreito e o tapete destacava ornamentos vermelhos. Passaram-se dois minutos desde minha última palavra.
Em uma fração de segundo tirou da mão oculta sob a porta um Camel e enfiou-o na boca, acendi-lhe cortesmente em um só movimento e como ato contínuo do cintilar produzido pelo isqueiro, virei em direção à porta e observei quase inaudível:
- Estranho nevar em setembro.
- Hoje você não entra querido.
Sua voz carregada de pena, esboçava qualquer coisa como um sentimento nobre, sentia-se nela o balbucio típico de ações forçosas.
Por minha feição, meus vestes e olhos deduzira de onde eu vinha e quantos copos de cerveja, exatamente, havia bebido após a última rodada que paguei aos dois companheiros à esquerda e a moça à direita no balcão.
Pela maneira com que segurava a porta, entreaberta deixando transparecer sua suave camisola de verão e uma parte de sua perna apoiada sobre a ponta do pé, meus olhos viam através, como se realmente pudessem, esbocei um sorriso, coisa que fazia quando tinha certeza que as coisas iam bem:
- Há uma banda tocando um blues sujo e pesado em algum lugar da minha cabeça - disse soturno - que tipo de furacão passou por aqui?
Ela permaneceu estática, via-se apenas o movimento dos lábios brancos penetrarem sedentos entreabertos deixando aparecer as extremidades dos dentes superiores e inferiores.
Ao fundo, não era blues que soava e sim algum clássico dos anos 80, um parente distante de uma banda consagrada, ela adorava essas coisas.
Uma tênue faixa de tempo passou, enquanto observava os sinais aparentes em seus ombros e pescoço, ambos glaciais, brancos e castos.
Não me olhava fixamente, mas direcionava inconstantes olhares em minha direção, que em qualquer outra ocasião soariam impacientes.
Soltou um leve sorriso interno e disse em voz relutante:
- Nós tínhamos um trato e você me aparece com esses sapatos lustrados, com esse sentimentalismo barato.
Olhei-a diretamente, minhas mãos não saíam do bolso, tudo o que fazia era brincar com meus dedos:
- Não há um lugar para onde eu esteja indo.
Foi quando ela fechou os olhos em compreensão e em seguida coçou uma das pernas com ajuda da outra.
Não havia muitos carros transitando, de maneira que em algum apartamento próximo um imbecil assistia o canal de vendas em um volume assombroso, fazendo-se ouvir ao longe.
O corredor era estreito e o tapete destacava ornamentos vermelhos. Passaram-se dois minutos desde minha última palavra.
Em uma fração de segundo tirou da mão oculta sob a porta um Camel e enfiou-o na boca, acendi-lhe cortesmente em um só movimento e como ato contínuo do cintilar produzido pelo isqueiro, virei em direção à porta e observei quase inaudível:
- Estranho nevar em setembro.
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